Nitidez e imperfeição


Percebi meu reflexo numa poça d’água. 
Eu não me reconhecia.
Aqueles olhos... Os traços... Os olhos vazios. Houve uma época em que habitei aquele corpo.
Mas isso fazia muito tempo.

Chamam de morte quando o corpo perde a alma. Eu estava morta.
Meu corpo trazia todas as marcas de uma vida que insisti em não viver. Eu não estava ali, não de verdade.

Nas minhas mãos sujas de areia a conexão com uma realidade que nem de longe me pertencia. Eu não me pertencia.
Eu estava perdida.
Geograficamente o destino pouco me importava. Pra longe, bem longe, numa outra estação, quem sabe.

O reflexo amarronzado numa poça suja era a melhor definição daquele momento.
Minha imagem mais nítida e imperfeita.
Eu poderia dar um grito e levantar dos mortos?

Sorri. 
- Nunca estive melhor.

Porque sim


Vou comprar um vestido vermelho, porque sempre quis ter um. Vou alugar uma moto por um dia, porque nunca tive uma moto. Vou ligar para o Gustavo e dizer que fui apaixonada por ele, porque ele nunca soube disso. Vou ler toda a obra de Shakespeare, porque me deu na telha. Vou pegar um ônibus e só descer na última parada, porque me deu vontade. Vou comprar o disco de uma banda que nunca ouvi falar, sem escutar na loja. Porque sim. Um exercício de desprendimento: desatar os nós que enlaçam atos e motivos. Fazer as coisas por impulso. Por que? Porque às vezes é bom a gente mostrar pra si mesmo quem é que manda aqui.”
- Martha Medeiros

Você acredita em dias melhores?


Às vésperas de mais um ano eleitoral as necessidades e carências da população de algumas cidades começam a ser expostas e gritadas nas ruas por seres que se dizem opositores.

Os postos de saúde não funcionam, as ruas têm buracos, a iluminação pública é uma piada, a segurança não existe e a educação é um sonho distante. Os serviços públicos não funcionam porque são moedas de troca para a politicagem praticada seguidamente. E viva a democracia!

Você precisa de atendimento médico, mas não vai conseguir uma consulta – superficial, ressalte-se – porque os postos de saúde do município estão em greve. Você precisa de um médico e não pode pagar um? Más notícias, amigo, os sujeitos de jaleco que deveriam cuidar da sua saúde não estão trabalhando porque estão insatisfeitos com seus “baixos salários e péssimas condições de trabalho”. 

Mas você, bem, você deve estar conformado com o péssimo atendimento, a má vontade dos funcionários públicos – evidente em cada olhar –, as filas, a demora, a humilhação. Nada disso importa, não é verdade? Eles não ligam se você está bem ou mal. Dane-se!

Alguns dizem que o poder de mudar tudo está em suas mãos, está em seu voto. Eu digo que nada disso importa. Que diferença fará a você votar em A ou B se no final das contas a ordem dos fatores não altera o produto? O resultado será sempre o mesmo. 

As raízes da corrupção nesse país são tão profundas que começam dentro do lar de cada brasileiro. Mentira? Ah, então você já não deu uma de malandro pra cima de alguém? Também nunca deu um “jeitinho brasileiro” pra resolver seus problemas? A coisa se tornou comum. Prática cotidiana, já não é nem percebida. E viva o país do futuro.

E eu tenho medo desse futuro que está por vir. Apavoram-me os valores dessa sociedade, dessa gente que não é mais capaz de se sensibilizar com uma garotinha atropelada no meio da rua (não entendeu? Clique AQUI), de gente que ouve gritos e tapa os ouvidos, gente que não chora, não sente. Gente que ignora. Gente cega por opção, porque preferiu fechar os olhos e costurar a boca. Dormência.

Eu tenho medo do mundo e sei que meu voto não pode mudar isso. O cara que for eleito com minha “ajuda” não vai trabalhar pra melhorar minha vida ou a do meu vizinho. No fundo, eles não estão nem aí. E enquanto não se importarem, o mundo continuará descambando ladeira abaixo. Sonhar com um futuro melhor? Não, hoje não.